PÈRÈGÚN E OUTRAS FABULAÇÕES DA MINHA TERRA - FÉLIX AYOH'OMIDIRÊ
Produzido por J. Velloso e Luzia Moraes, 2010

   Esse disco é uma coletânea de contos cantados iorubanos que oferece ao leitor a oportunidade de entrar em contato com narrativas de uma cultura que decerto circularam pelo Brasil. Neste sentido, tenta apresentar traços importantes da cultura iorubana, com a qual a maioria dos afrobrasileiros dialoga há muito tempo.

   Sobre a produção desse disco, J. Velloso contou:

   

Conheci o professor Félix Ayoh'Omidire, um dos maiores conhecedores da cultura Iorubá, na Festa do Bembé do Mercado de Santo Amaro (BA). Foi no ano que o Ministério da Cultura deu um maior reconhecimento a esta festa popular que tem origem na comemoração dos negros, levando o candomblé para o mercado, um ano após a assinatura da Lei Áurea. Ele participou desse evento como palestrante e eu fui ao seu encontro para convidá-lo para participar de meu primeiro disco (Aboio para um Rinoceronte) recitando um Oriki para Oxossi na faixa "Ofá". Ele, com muita simpatia e simplicidade, aceitou o convite e sua participação foi muito importante para o disco e nossa amizade prosseguiu. Depois disso fui a alguns lançamentos de livros dele, entre eles, o  livro “Peregun e Outras Fabulações da Minha Terra”. Foi então que Félix me explicou que os contos contidos no livro eram músicas usadas pelos “griôs” para passarem a base educativa e cidadã nas aldeias da Nigéria, e me pediu para gravar um disco com esses cantos. Mas, sabendo dos custos altos para se fazer um CD e por não ver nenhum caminho para viabilizar o projeto, eu ouvia e me calava. Os anos se passaram e Félix um dia me ligou dizendo que teria que voltar para a Nigéria com a família, pois Anike Ruth, sua esposa, estava com seu visto de permanência pra vencer em breve e que queria gravar o CD antes de voltar para sua terra. Para não decepcionar o amigo e sabendo também da importância do que ele estava propondo, sugeri que fizéssemos uma gravação caseira para eu ter o registro para tentar viabilizar o projeto, mesmo sem saber como.

 

   Fui à casa da família Omidirê e lá imediatamente fui contagiado com a convivência que eles possuem entre si. Fui recebido de forma simples, sincera e carinhosa. Ele nos chamou para um quarto nos fundos da casa, eu, sua mulher e suas filhas, pois era o local mais silencioso. Pegou um instrumento africano, que parecia um chocalho, e perguntou: “podemos começar? ”. Eu preparei o aparelho de MD (mini disc) e disse ‘gravando’. Daí em diante presenciei uma surpresa emocionante de ouvir: aquelas pessoas cantando tão bem e com tanta naturalidade... Eu ouvia e me arrepiava. Lembrava de Santo Amaro e do Terreiro do Gantois. E me perguntava: ‘como ninguém ainda gravou isso? ’. Fui gravando as outras músicas que eles cantavam já pensando o que fazer para não perder aquela pérola africanamente negra e tão significativamente baiana.

    Acabou o encontro e fiquei de levar para eles, em CD, o que tinha gravado. Fiquei dias imaginando como gravar aquilo tudo e tive uma ideia. Fui conversar com Wesley

Rangel, dono do estúdio WR, e lhe expliquei a situação. Pedi a ele umas horas de estúdio para gravar aquelas vozes para pagar depois da aprovação do projeto. Eu acreditava que essa aprovação seria fácil conseguir por algum órgão público ligado à cultura, pois, mim eraum projeto impossível de não se perceber a importância. Rangel, como consta no seu histórico de empresário sensível para além do lucro, me disponibilizou uns períodos do final de noite e que entrava pela madrugada. Depois disso fui ver quem poderia entrar nesse projeto para receber seu cachê depois. Conversei com o técnico de gravação Duda Silveras, com os músicos Iuri Passos e Yomar (ogans do Gantois), com o percussionista Dailha Mendes e com produtor e compositor Luciano Salvador Bahia. Nos reunimos e definimos a forma para fazermos o registro das vozes para depois a gente gravar a percussão e os outros instrumentos.

   

 As gravações ocorreram com o mesmo clima amoroso que pude usufruir na casa da família Omidirê. Gravamos as vozes sobre bases de percussão. Os percussionistas sugeriam os toques, Félix sinalizava opinava, e nós escolhíamos. Tudo foi muito rápido e tudo foi ficando muito bonito. Fico sentido em não ter as imagens dessas gravações, pois aquele amor entre eles misturado com os cânticos e danças que eles realizavam mereciam um registro audiovisual. Logo depois dessas gravações, Félix e sua família retornam para Nigéria e eu fiquei com a incumbência de conseguir viabilizar o CD. Para mim, como já disse, seria muito simples devido à importância do projeto. Mas levei anos sem conseguir nada em nenhuma esfera pública ligada à cultura. A situação só mudou depois de dois anos, quando Luzia Moraes inscreveu o projeto no Fundo de Cultura do Estado e foi aprovado. Inicialmente a ideia do projeto foi dar preferência à estética sonora valorizando as vozes da família Omidirê e a percussão dos ogans e alabês do Gantois. Depois fomos ver que tipo de interferência musical poderíamos fazer sobre a base vocal africana. Essa interferência musical foi realizada por músicos de virtuose reconhecida e sensibilidade apurada, como Paulo Dáfilin, Raimundo Nova, Luciano Calazans, Alex Mesquita e Luciano Bahia; e também programações sutis de DJ Patife.

   É um disco que promove o encontro de saberes africanos com o que se mantem preservado nos candomblés de Keto na Bahia. Ouvindo o disco dá para perceber o sotaque e a fé dos baianos, mas ver os músicos do Gantois trocando palavras com essa família iorubana, foi a certeza que a África vive viva ainda aqui."

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